Quando falamos de segurança alimentar, pensamos naturalmente naquilo que chega à nossa mesa: a origem dos alimentos, a sua produção, transformação e conservação. Mas entre a origem e o consumidor existe um percurso logístico decisivo que merece cada vez mais atenção.
Todos os dias, milhares de toneladas de produtos alimentares percorrem estradas, passam por plataformas logísticas, são armazenadas, movimentadas e entregues. Ao longo deste percurso há inúmeras variáveis que podem comprometer a qualidade e a segurança dos produtos.
Por isso, a segurança alimentar no setor dos transportes e da logística não deve ser encarada apenas como uma questão de conformidade, mas como uma responsabilidade estratégica e uma componente essencial da qualidade do serviço prestado.
Preservar, não só transportar
Uma operação logística pode ser avaliada por diferentes critérios tais como o cumprimento de prazos, a eficiência, a capacidade de resposta ou qualidade do serviço. Quando falamos de produtos alimentares é fundamental preservar as condições em que o produto deve chegar ao destino.
O desafio não é apenas transportar uma mercadoria de um ponto A para um ponto B. É garantir que, durante todo o percurso, se mantêm as condições adequadas à sua segurança e qualidade, ou seja, garantir a robustez do sistema – uma responsabilidade que se torna particularmente evidente no transporte de temperatura controlada, sem que a cadeia de frio seja interrompida.
A capacidade da organização para integrar elementos como a higiene das viaturas e instalações, a prevenção de contaminações cruzadas, o controlo das temperaturas, o acondicionamento das cargas, a rastreabilidade, a manutenção dos equipamentos e a formação dos colaboradores define uma cultura comum de segurança alimentar que contribui para a responsabilidade associada a este setor.
Uma cultura constrói-se
Uma das questões mais relevantes neste âmbito é a capacidade de transformar requisitos em comportamentos, pois, apesar de ser relativamente simples escrever um procedimento, é mais exigente garantir que é compreendido, aplicado e valorizado por todos.
É aqui que entra a verdadeira cultura de segurança alimentar, nos momentos que não estão previstos. O que fazemos perante uma temperatura fora dos parâmetros, uma viatura sem condições adequadas ou um colaborador que hesita em comunicar um risco. Uma cultura de segurança alimentar forte é aquela em que fazer o que está certo é uma escolha natural, mesmo quando implica parar, questionar ou corrigir.
Vivemos numa época em que a tecnologia assume um papel crescente na logística. Hoje monitorização em tempo real através de sensores e sistemas de rastreabilidade permitem a análise de dados que aumentam a capacidade de controlo e prevenção, contudo, nenhuma tecnologia substitui a responsabilidade humana.
Investir em segurança alimentar significa também investir em formar, sensibilizar, comunicar e envolver, para que cada colaborador compreenda que a sua função, independentemente da área ou do nível hierárquico, tem impacto na segurança do produto.
Há uma palavra que resume o impacto da segurança alimentar na logística: confiança. O cliente confia que a mercadoria será tratada de acordo com os requisitos definidos, já o produtor confia que o produto manterá as condições adequadas ao longo do percurso, e, o consumidor confia que o alimento que compra é seguro. A empresa de logística, onde nos inserimos, assume uma parte desta cadeia de confiança.
Sistemas Integrados de Gestão: ligar requisitos à realidade
É neste contexto que os Sistemas Integrados de Gestão (SIG) assumem particular importância. Qualidade, Segurança Alimentar, Segurança e Saúde no Trabalho, Segurança Rodoviária e Ambiente não devem ser vistos como compartimentos estanques numa empresa de transportes e logística já que estes sistemas se cruzam diariamente.
Uma operação bem planeada contribui, ao mesmo tempo, para a qualidade do serviço, segurança alimentar e segurança dos colaboradores. Uma manutenção preventiva adequada reduz riscos operacionais e evita avarias. Uma boa formação melhora comportamentos em diferentes áreas de atuação.
A integração permite olhar para a organização como um todo, e não apenas para requisitos individuais. Mais do que garantir conformidade, o objetivo deve ser criar organizações mais robustas, conscientes e preparadas para prevenir riscos.
No setor dos transportes e da logística, estamos habituados a medir distâncias em quilómetros e desempenho através de indicadores, é na segurança alimentar que está a exigência de olhar para esses números de outra forma: cada quilómetro, cada operação e cada colaborador representam uma oportunidade para preservar a segurança do produto e reforçar a cultura da organização, porque, no final da cadeia logística, não está apenas uma mercadoria, está um consumidor a colocar comida no prato.


