Quando falamos de desperdício alimentar, a primeira imagem é a do frigorífico lá de casa. Os números dão razão a essa imagem já que as famílias geram mais de metade do desperdício alimentar na União Europeia. Mas há uma parte do problema que quase ninguém vê, porque acontece antes dos produtos chegarem às prateleiras, dentro de um semirreboque frigorífico, algures numa estrada entre o produtor e o supermercado.
Carne, peixe, laticínios, fruta e legumes são produtos perecíveis que viajam todos os dias com uma margem de poucos graus. Se a unidade de frio falha e ninguém dá por isso, uma carga em perfeito estado pode chegar ao destino como resíduo, por isso, no transporte de temperatura controlada, registar a temperatura já não chega. Saber o que está a acontecer durante a viagem e agir atempadamente é o que faz a diferença.
Do registo à reação
O transporte refrigerado sempre teve registo de temperatura. O termógrafo acompanha a carga e, no fim, mostra o que aconteceu e o problema é exatamente esse… mostrar apenas no fim. Uma avaria na unidade de frio, uma porta mal fechada ou um parâmetro mal programado podem passar despercebidos durante horas.
Descobrir a falha no cais de descarga é o pior cenário já que a carga pode ser rejeitada, o cliente fica sem o produto de que precisa e alimentos que estavam bons à partida acabam no lixo. Descobrir a mesma falha no início ou meio da viagem é outra história, porque ainda há tempo para corrigir.
Na TJA, monitorizamos à distância a temperatura do transporte refrigerado desde 2014. Hoje, 100% da nossa frota frigorífica está ligada a um sistema que cruza a temperatura do ar de entrada, a temperatura do ar de retorno, a temperatura ambiente e os registos do termógrafo. Estes dados chegam em tempo real à nossa equipa de gestão de tráfego e frota, que acompanha a frota 24h por dia, 7 dias por semana.
Sempre que a temperatura sai dos parâmetros definidos para a carga, ou a unidade de frio emite um alarme, recebemos um alerta imediato e entra em ação toda a nossa estrutura para que seja resolvido o mais rapidamente possível.
Muitas situações resolvem-se à distância. Ajustamos parâmetros da unidade de frio e, depois de identificada e corrigida a causa, reativamos o sistema de segurança, sem que o motorista tenha de parar. Quando o problema exige intervenção física, orientamos o motorista em tempo real ou encaminhamos a viatura para a oficina autorizada mais próxima do percurso, antes de a carga estar em risco.
Como gestor de frota, vejo outra vantagem que raramente entra nesta conversa. O histórico de alarmes de cada unidade de frio mostra-nos quais estão a dar sinais de desgaste antes de avariarem. Com essa informação, planeamos a manutenção preventiva e reduzimos as avarias em viagem. A carga mais fácil de salvar é a que nunca chegou a estar em risco.
O transporte como elo da segurança alimentar
Para além do desperdício, há uma questão de saúde pública. A temperatura é uma das principais barreiras ao crescimento de microrganismos nos alimentos perecíveis, e cada quebra na cadeia de frio reduz a margem de segurança do produto, mesmo quando nada se nota à vista.
O transporte é um dos elos dessa cadeia, entre o produtor, o armazém e o ponto de venda. Não controlamos o que acontece antes nem depois. Temos a obrigação de garantir que, no nosso troço, a temperatura é acompanhada de forma contínua e que qualquer desvio é detetado e tratado a tempo. É esse o princípio do nosso sistema de gestão da segurança alimentar, certificado pela norma ISO 22000.
A exigência dos clientes acompanhou esta evolução. À chegada, já não basta que o produto pareça fresco. As equipas de receção pedem o histórico de temperatura da viagem e, nalguns casos, é a própria lei que obriga os meios de transporte de alimentos ultracongelados a dispor de instrumentos de registo da temperatura do ar.
A telemática transforma essa obrigação numa ferramenta de confiança. O cliente recebe a prova de que a temperatura se manteve dentro dos parâmetros e, quando houve um desvio, sabe quando aconteceu, quanto tempo durou e o que fizemos para o corrigir.
Mais do que chegar a horas
Hoje, a telemática é um requisito no transporte com temperatura controlada e a diferença entre empresas está no uso que fazem dos dados. No transporte de alimentos já não basta saber, no fim da viagem, o que correu mal. Cada carga que chega ao destino fora de temperatura é comida desperdiçada, recursos gastos sem retorno e um cliente sem o produto de que precisa. Com a temperatura acompanhada do primeiro ao último quilómetro, um desvio corrige-se antes de se tornar uma perda. Cumprir o prazo é o mínimo que se espera de um transportador. O que os nossos clientes nos pedem, e o que exigimos a nós próprios, é que a carga chegue como partiu.


